A estrela Angelina Jolie e o diretor Clint Eastwood se encontraram profissionalmente pela primeira vez em 2007, durante as filmagens do drama de época A Troca. A elegante produção agradou a crítica internacional, foi um sucesso em sua exibição no Festival de Cannes em 2008, arrecadou em sua bilheteria internacional US$ 113,02 milhões de dólares e recebeu indicações aos principais prêmios daquele ano. Entre eles, três ao Oscar: atriz para Jolie, direção de arte e fotografia. Além do êxito, o filme rendeu aos artistas uma sólida amizade.
Atualmente, ambos estão promovendo seus novos filmes. Eastwood a cine-biografia J. Edgar, estrelada por Leonardo Di Caprio, e Jolie Terras de Sangue e Mel, seu primeiro longa-metragem como diretora. A revista norte-americana Interview, com a atriz Scarlett Johansson na capa, traz no mês de dezembro um bate papo entre os dois artistas, com a novata diretora sendo entrevistada pelo veterano. Confira:
CLINT EASTWOOD: Eu vi o filme outro dia e gostei muito, ótimo trabalho. Não acho que as pessoas vão pensar que é a primeira vez que você dirige um filme.
ANGELINA JOLIE: Oh… muito obrigada.
EASTWOOD: Você deve ter tido boas influências ao longo do caminho...
JOLIE: Sim, você é uma delas (risos). Quando eu estava no set com você, eu pensava: “Meu Deus, Clint faz isso parecer muito, muito fácil.” E de verdade, não é assim tão fácil. Mas você parecia estar cercado por grandes pessoas e deixava com que elas o incentivasse. Eu também tinha uma grande equipe, eles foram incríveis. Então eu tive sorte.
EASTWOOD: Existe violência pesada neste filme, geralmente as pessoas não costumam associar que uma mulher trabalhe algo do tipo em seu primeiro filme (Jolie risos). Eu também fiquei realmente surpreso com a boa direção de arte. É realmente adicionada uma sensação autêntica a coisa toda.
JOLIE: Oh, Clint, obrigada! E isso é Jon Hutman (designer de produção) e Dean (Semler, diretor de fotografia). Tivemos a sorte de que todos os atores e os envolvidos no filme são da região e viveram a guerra, eles puderam nos ajudar a dar o tom certo a tudo.
EASTWOOD: Você tem a sensação de que todo mundo estava ligado a ele (tom real da narrativa) de alguma forma. Os atores pareciam autênticos. Ou isso, ou eles, eram simplesmente brilhantes?! O que talvez pode ter sido o caso também.
JOLIE: Vou parecer tendenciosa, mas acho que eles são brilhantes.
EASTWOOD: Quando você decidiu que queria dirigir o filme? Quando eu li o roteiro, eu pensei que sua intenção era atuar como protagonista. Mas eu não tinha discutido isso com você, então eu não sabia exatamente onde você estava indo...
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JOLIE: Eu acho que eu sempre soube que o filme pertencia aos atores da região, e eu não poderia estar nele como atriz. Eu tinha o louco pensamento de dirigir, mas não queria aceitar isso. Eu nunca acreditei que era a pessoa certa tecnicamente, mas eu não podia deixar de tentar, por isso, acabei dizendo: “Tudo bem, vamos enviar o roteiro para algumas pessoas da área, e se acharem que é ruim… esqueço o projeto. Mas se estiverem dispostos a fazer o filme comigo, então talvez haja alguma verdade e eles podem me ajudar acertadamente na produção. Quando eu estava com Bernie (David Bernstein, assistente do diretor), ele começou a falar sobre o que foi realizado… coloquei as mãos na cabeça, e pensei: “não sei como cheguei até aqui!”.
EASTWOOD: Eu acho que de alguma forma você refletiu e tomou uma decisão: “Ok, eu estou pronta para isso “.
JOLIE: Eu não sei se realmente pensei que estava pronta… mas tinha uma certeza: “Oh, o que estou fazendo? Estou fazendo um filme!” Acho que a questão é sobre: ” Qual é o seu próximo filme? “Depois, por vezes, temos sorte, capacidade e inteligência para tomar decisões:” Eu só quero ser uma artista, quero tentar algo, aprender. Quero jogar e criar, não estou realmente certa a respeito de nada, mas eu quero aprender algo novo. “
EASTWOOD: Bem, esse é o caminho a percorrer. Você acabou de se jogar de cabeça nele!
“Tivemos uma jovem atriz, linda, doce, tão cheia de vida, e tragicamente ela perdeu 28 familiares no conflito. Mesmo com todo o sofrimento ela não é uma pessoa deprimida, existe uma luz brilhante dentro dela. Eu não sei exatamente como ela conseguiu superar tantos momentos difíceis.” ANGELINA JOLIE
EASTWOOD: O que eu gostei sobre o elenco é que você pode dizer definitivamente que não são atores norte-americanos atuando. Pela autêntica identificação deles com o tema abordado.
JOLIE: O que era importante para mim, e o que significou muito, é que eles concordaram que não era apenas um lado da história que estava sendo contado. Havia pessoas de todos os lados, que decidiram que estariam juntas. Por isso havia sérvios da Bósnia, sérvios da Sérvia, muçulmanos bósnios e croatas, o que foi ótimo! Você sabe, eu pensei muito sobre isso, porque nós fizemos isso utilizando a linguagem da região, que foi chamada de servo-croata, e que hoje é bósnio-croata-sérvio. Lembrei de você quando dirigiu Cartas para Iwo Jima (2006) e pensei de alguma forma no seu filme. Mas fiquei confusa, muitas vezes (risos).
EASTWOOD: Seus atores praticamente viveram a guerra...
JOLIE: Eles viveram! Muitos deles tem lembranças dela. Todo mundo estava em uma idade diferente e lembraram dos fatos de maneiras diferentes. Inclusive, algumas pessoas do elenco e da produção possuem em seus corpos ferimentos de bala. Tivemos uma jovem atriz, linda, doce, tão cheia de vida, e tragicamente ela perdeu 28 familiares no conflito. Mesmo com todo o sofrimento, ela não é uma pessoa deprimida, existe uma luz brilhante dentro dela. Eu não sei exatamente como ela conseguiu superar tantos momentos difíceis.
JOLIE: Eu vi o trailer de J. Edgar. Estou sempre curiosa para ver o que você está fazendo, achei incrível. Você está feliz com ele?
EASTWOOD: Sim, estou, mas você sabe, eu ainda estou aprendendo. (Jolie risos) Nunca sabemos verdadeiramente nada, então, em algum momento você pensa apenas: “Oh, bem… e depois entrega o filme ao público e vê como ele será aceito. Eu imagino que você está sentindo isso agora...
JOLIE: Eu estou tentando não pensar nisso! Eu ainda não acredito que ele (o filme) está saindo. Ainda não estou completamente convencida se tudo isso faz sentido. Vi o primeiro trailer e pensei: “Uau… isso é mesmo um trailer de verdade!”. Não estava esperando um trailer de verdade, ou mesmo um cartaz de verdade, ou uma data de lançamento de verdade. De alguma forma isso (o filme) é uma maravilhosa e criativa peça de arte que fiz com alguns amigos...
EASTWOOD: Mas todos estão muito animados com Terras de Sangue e Mel! Acho que as pessoas vão se surpreender...
JOLIE: Isso significa muito vindo de você.
EASTWOOD: Novamente repito você vai surpreender a todos!
JOLIE: Suas belas palavras significam muito, muito para mim. Me deixam até certo ponto… envergonhada. Estou feliz que você não tenha me ligado e dito algo como: “Eu acho que você deve esconder seu filme. Você sabe?! Recomeçar!”
EASTWOOD: Não, não. Eu acho que é um filme difícil e que é extremamente bem feito! Filmes como Terras de Sangue e Mel são muito complexos em seu processo de realização.
EASTWOOD: E quando você volta para Los Angeles?
JOLIE: Dezembro… talvez mais cedo.
* Tradução: Ramon Dutra
Angelina Jolie e Zana Marjanovic, protagonista do longa, em entrevista durante o Festival de Sarajevo
Terras de Sangue e Mel chega aos cinemas norte-americanos em 23 de dezembro e no Brasil em 23 de março do próximo ano.
















