Televisão: 12 novelas brasileiras para esquecer que existiram

As novelas brasileiras quase sempre foram sinônimo de qualidade e repercussão nacional e internacional. O que acontece quando autores, diretores e atores erram a mão e cometem atrocidades como Bang Bang e a atual Amor à Vida? Somos presenteados com abacaxis difíceis de descascar. Como as esquecíveis doze produções que você confere a seguir.

SALVE JORGE (2012-13) De Glória Perez. Direção Marcos Schechtman

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“Jorge vem lá da Flopadocia….”: Claudia Raia e Nanda Costa em cena de Salve Jorge / Tv Globo

Tráfico de mulheres e pacificação do morro do Alemão, tendo como pano de fundo a ponte aérea entre Brasil (Rio de Janeiro) e Turquia (Istambul) fizeram de Salve Jorge o maior fracasso de audiência de todos os tempos no horário das nove da Globo – média geral (SP): 34 pontos. Péssimas atuações, direção e texto sem pé nem cabeça deram o tom a novela que permaneceu no ar por tortuosos sete meses. Mais divertido do que acompanhar a rocambolesca produção em que Morena (uma apagada Nanda Costa) era traficada pela quadrilha da vilã do sapato Lívia Marine – Cláudia Raia fazendo cosplay de Victoria Grayson (Revenge) e sua inseparável seringa, era a indignação via Twitter da autora Glória Perez (de sucessos como Hilda Furacão e O Clone). A novelista não permanecia calada perante o mar de críticas que público e jornalistas teciam todas as noites contra a confusa novela. Em meio a tantos absurdos – erros de continuidade, péssima atuação de Rodrigo Lombardi e atores consagrados fazendo figuração, apenas a delegada Helóisa – Giovanna Antonelli em bom momento, terminou a produção no saldo positivo.

ANTONIO ALVES, TAXISTA (1996) De Ronaldo Ciambroni. Baseado no original de Alberto Migré. Direção Marcelo Travesso

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Reprodução

Novela independente da produtora argentina Ronda Studios, Antonio Alves, Taxista é daquelas tramas que tinham tudo para dar errado já no papel. Idealizada como o retorno as produções do cantor e ator Fábio Jr. e de Sonia Braga – que abandonou a trama ainda na fase inicial. A pouco conhecida Branca de Camargo herdou o papel da vilã Odile, que por fim virou Claudine. Cenários que pareciam de papelão, erros gravíssimos de continuidade, texto fraco e situações bizarras permeavam a tenebrosa produção. Devido ao fracasso homérico de audiência, Antonio Alves, Taxista fora encurtada terminando com 82 capítulos. Na trama escrita por Ronaldo Ciambroni – a partir do original de Alberto Migré, Fábio Jr. é o taxista que deixa Florianópolis para melhorar de vida em São Paulo. Uma estreante – e péssima – Guilhermina Guinle vivia o par romântico do cantor de Alma Gêmea.

AGORA É QUE SÃO ELAS (2003) De Ricardo Linhares. Direção Roberto Talma

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Falabella e Fischer passando vergonha / Tv Globo

Ricardo Linhares só funciona como colaborador/co-autor/supervisor de outros autores, vide os bons trabalhos apresentados em Tieta – com Aguinaldo Silva, Paraíso Tropical – com Gilberto Braga e Cheias de Charme – com Felipe Miguez e Isabel de Oliveira. Sozinho, o autor é especialista em cometer obras tenebrosas como Meu Bem Querer e a recente Saramandaia. O ápice desse horror foi conseguido por Linhares na nada vista Agora é Que são Elas, fracasso da faixa das 18 horas da Globo exibido em 2003. Protagonizada por Vera Fischer, Miguel Falabella, Marisa Orth e Paulo Gorgulho, a trama mostrava os encontros e desencontros do quarteto amoroso. Alguém lembra?

METAMORPHOSES (2004) De Arlete J. Gaudin (1ª fase) e Leticia Dornelles (2ª fase). Direção Tizuka Yamasaki

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Rede Record

A produção independente exibida na Rede Record em meados dos anos 2000, prometia revolucionar a dramaturgia nacional. Conseguiu. Foi o maior fracasso de crítica e público – que público?, da emissora paulista. A confusa trama que envolvia a máfia japonesa Yakusa e cirugias plásticas (!) teve duas fases, devido seu fracasso de audiência – que girava em torno de 2 pontos. Ao fim da primeira fase deixavam a trama atores como Paulo Betti e Joana Fomm, que davam lugar a talentos como Ricardo Macchi –  o eterno Cigano Igor, e Jackeline Petkovic. Luciano Szafir, o protagonista, permaneceu até o fim da tortura. Metamorphoses – que marcou a estreia em novelas de Paolla Oliveira e Ellen Rocche, teve o final de grande parte dos seus personagem apenas narrado.

ZAZÁ (1997) De Lauro César Muniz. Direção Jorge Fernando

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Tv Globo

Última novela de Lauro Cesar Muniz na Rede Globo, Zazá reunia um elenco estelar – encabeçado por Fernanda Montenegro – para contar a pífia história da descendente de Santos Dumont, Zazá, que tem o ambicioso projeto de lançar um avião atômico. No campo pessoal, ela deseja dar rumo a vida dos complicados sete filhos. Grande fracasso do horário das sete da emissora – média geral de 31 pontos (SP), a novela entrou para o hall das produções esquecidas pelo público. Inexplicavelmente, Cláudia Ohana vindo do sucesso arrebatador da vilã Isabela Ferreto de A Próxima Vítima, aceitou interpretar uma personagem apagada na produção – a ativista Maria Olímpia. Um desperdício.

BANG BANG (2005-06) De Mario Prata. Supervisão de Carlos Lombardi. Direção Ricardo Waddington e José Luiz Villamarim

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Tv Globo

Fazer crítica social tendo como pano de fundo um outro período da história mundial, deu muito certo em 1989 e resultou na clássica Que Rei Sou Eu?, de Cassiano Gabus Mendes. Dezesseis anos depois, estreava Bang Bang – novela iniciada por Mario Prata e levada até o final por Carlos Lombardi, com o objetivo de inovar e trazer frescor as produções do gênero. Da ideia original não sobrou nada. Após pouco mais de um mês no ar, a trama de vingança de Ben Silver (o irritante Bruno Garcia) contra o mau caráter Paul Bullock (Mauro Mendonça), virou uma típica novela de Lombardi com correrias, insinuações de sexo, diálogos pretensamente ousados e os inconfundíveis descamisados – inclusive com a entrada de um dos atores fetiche do autor: Marcos Pasquim. Fracasso de repercussão, eclipsada por Prova de Amor da Record, Bang Bang marcou a sofrível estreia da modelo e apresentadora Fernanda Lima como atriz. Ela era a protagonista Diana Bullock, filha do vilão e interesse amoroso do herói da trama – com direito a canção tema Não Resisto a Nós Dois, cortesia de Wanessa Ex-Camargo.

OS MUTANTES – CAMINHOS DO CORAÇÃO (2007-08) De Tiago Santiago. Direção Alexandre Avancini

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Rede Record

Tiago Santiago fora colaborador de Antonio Calmon na clássica Vamp, que virou mania entre o público infanto-juvenil em 1991. Tentando produzir uma obra com o mesmo alcance da produção global, o autor escreveu Mutantes. Ficou apenas na vontade. Mesmo tendo conquistado uma audiência satisfatória, a produção primava pela bizarrice. Diálogos didáticos ao extremo, defeitos especiais e péssimas atuações – Bianca Rinaldi “interpretando” a vilã Samira era de fazer qualquer um sentir vergonha alheia, fizeram da produção uma das piores das já exibidas na televisão mundial. Melhor sequer lembrar das horrorosas tramas que envolviam Carla Cabral (ex-Regina) como uma rainha das formigas no mundo subterrâneo e Théo Becker – aquele da Fazenda, como um homem cobra.

GUERRA DOS SEXOS (2012-13) De Sílvio de Abreu. Direção Jorge Fernando

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O remake de Guerra dos Sexos cheirava a mofo / Tv Globo

Um enorme sucesso dos anos 80, Guerra dos Sexos resultou numa das maiores bombas da televisão em seu remake cometido pelo autor do original, Sílvio de Abreu. Utilizando o texto escrito em 1983, sem alterar falas ou situações, a preguiçosa produção não foi salva nem pela presença da sempre talentosa Glória Pires. Uma comédia sem a menor graça, Guerra dos Sexos apresentou também péssimas atuações de Edson Celulari, Mariana Ximenes – que parece ter perdido o rumo da carreira televisiva, Eriberto Leão, Reynaldo Gianechini – insuportável como o motorista Nando, e principalmente Tony Ramos, fora do tom e artificial na pele do machista Otávio. O fracasso foi tanto, que resultou na menor média de audiência do horário – 23 pontos em São Paulo.

JAMAIS TE ESQUECEREI (2003) De Ecila Pedroso e Enéas Carlos. Baseado no original de Caridad Bravo Adams. Direção Jacques Lagôa e Henrique Martins

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SBT

O SBT e sua tradição em adaptar tramas de sucesso de outros países – em especial as mexicanas, é algo conhecido pelo grande público. Entre alguns acertos – Pérola Negra, Pícara Sonhadora e Carrossel, a emissora de Silvio Santos apresentou uma série de abacaxis, com destaque especial ao sonífero Jamais Te Esquecerei. Levada ao ar pela Televisa em 1999, a produção trazia nos papéis principais Fernando Colunga (Carlos Daniel de A Usurpadora) e Edith González. Quatro anos depois, com Fábio Azevedo e Ana Paula Tabalipa, Jamais Te Esquecerei chegou ao ar com a trama do casal separado por uma série de mentiras. Com uma direção de arte sofrível, a novela trazia atuações constrangedoras – Wanderley Cardoso, e um ritmo mais lento que qualquer produção dirigida por Jayme Monjardim. O SBT é tão guerreiro, que teve a coragem de reprisar essa angústia durante as tardes mofadas da emissora. Resultou num novo fracasso de audiência.

FINA ESTAMPA (2011-12) De Aguinaldo Silva. Direção Wolf Maya

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Tv Globo

Ao longo de sete meses o público acompanhou a rocambolesca batalha entre Griselda, a heroína acima de qualquer suspeita interpretada com preguiça por Lília Cabral, e a vilã de peça infantil Tereza Cristina – sempre acompanhada por seu mordomo estereotipado Crô (Marcelo Serrado), megera construída de forma caricata por sua intérprete Christiane Torloni. A tão falada discussão em torno de imagem e caráter desapareceu logo nos primeiros meses da trama, mas precisamente quando a protagonista ficou rica. Sobrou barraco entre as rivais, ofensas que soaram repetitivas e uma disputa que no fim não ficou explicada. A motivação do ódio de Tereza Cristina por Griselda, seria o envolvimento da portuguesa com seu marido René (um apagado Dalton Vigh). Essa razão se mostrou inexistente a partir do momento que a “Pereirão” não levou adiante seu romance sem química com o chefe de cozinha. Usando como exemplo essa trama, a principal inclusive, é percebido o quanto Aguinaldo Silva se perdeu ao escrever Fina Estampa. Deixando o desenvolvimento da novela de lado, e priorizando a criação de situações que pareciam sair de um quadro do humorístico Zorra Total. A trama, com média geral de 39 pontos – a melhor desde Caminho das Índias de 2009, recuperou a audiência do horário. Mesmo que tenha deixado muito a desejar em qualidade.

BALACOBACO (2012-13) De Gisele Joras. Direção Edson Spinello

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Rede Record

A novela escrita por Gisele Joras foi um amontoado de clichês e tentativa de ser diversas produções bem sucedidas. A começar pelo nome que nos remete a êxitos do passado como Cambalacho e Sassaricando – ambas de Sílvio de Abreu, exibidas nos anos 80. A trilha sonora e o tom da narrativa – dramático e cômico – nos levam a dois grandes fenômenos televisivos de um passado recente: Avenida Brasil e Cheias de Charme. Logicamente sem conseguir repetir a bem sucedida marca das duas tramas globais. Balacobaco foi produzida a toque de caixa, começando com um humor escrachado excessivamente sem graça. Na trama a protagonista Isabel, Juliana Silveira em seu retorno às novelas após três anos, vive um triângulo amoroso com os irmãos de criação Eduardo (Victor Pecoraro) e Norberto (o exagerado Bruno Ferrari) – o “grande vilão” da trama. Balacobaco não fez o menor sentido, o que se assistiu foram apenas colagens de acontecimentos que não diziam nada ao seu telespectador – que se traduziu na pífia média geral de sete pontos (SP).

AMOR À VIDA (2013-14) De Walcyr Carrasco. Direção Wolf Maya e Mauro Mendonça Filho

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Tv Globo

A atual trama das 21h da Globo ainda não chegou ao seu último capítulo, mas já pode ser considerada a pior novela brasileira de todos os tempos. Nada funciona em Amor à Vida, novela genérica e sem personalidade escrita por Walcyr Carrasco, que visivelmente abusa das referências – Gilberto Braga, Manoel Carlos e Sílvio de Abreu e autorreferências – diálogos piegas e didáticos. O autor conseguiu a proeza de criar uma horda de personagens insuportáveis, cansativos e sem um pingo de carisma – impossível torcer por grande parte deles. Protagonizada pela bela Paolla Oliveira – em boa atuação, apesar do texto ruim de Carrasco, a produção desperdiça talentos como Antonio Fagundes, Ary Fontoura e Nathalia Timberg,  jogados em tramas que não possibilitam maiores voos, devido a falta de profundidade do texto e das situações apresentadas. As péssimas atuações de Malvino Salvador – nunca esteve pior, Juliano Cazarré, Caio Castro, Julio Rocha, Ricardo Tozzi, Danielle Winits e Anderson di Rizzi ajudam a afundar ainda mais a cambaleante produção. Mateus Solano, o vilão afetado Félix, é um caso a parte. Mesmo não sendo um mau ator, o intérprete está visivelmente perdido em cena. Com uma atuação exagerada, piorada pelas falas cansativas – sempre com referências bíblicas sem sentido, que precisa repetir a cada capítulo. Apesar de tanta apelação, Amor à Vida não emplaca na audiência, possui até o momento média geral estacionada em 34,9 pontos (SP). Além de uma audiência pálida, a trama de Carrasco é uma ode ao mau gosto, que não se restringe a texto e atuações medíocres, se estende a fotografia fúnebre e inadequada.

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Publicado por

Ramon Dutra

Jornalista

11 comentários em “Televisão: 12 novelas brasileiras para esquecer que existiram”

  1. Shenty, que texto delicioso de ler, apenas concordo com tuda. Amor à Vida é, sem dúvida, a maior bomba exibida pela televisão universal, ainda sonho com essa porcaria dando menos que SJ, que perto dessa porcaria virea uma obra-prima. Como sempre, arrasou no texto amoure!!!!

  2. Não concordo com Guerra Dos Sexos, na minha opinião foi a melhor novela que a Globo produziu, e a presença de uma das melhores atrizes brasileiras, Glória Pires, ajudou muito, amei demais essa novela e acho injusto ela ai.
    Como já haviam dito, faça uma novela melhor então -_-

  3. Desconto plenamente, fina estampa, muita gente assistiu, teve muita audiência, zaza e bang bang tambem foi muito divertido, quem escreveu isso deve ver só novela mexicana…..rs

  4. Uma tolice considerar “guerra dos sexos” uma novela péssima… Que pode se esperar de uma contracenacao de Tony Ramos, Glória Pérez, Celular e M. Ximenes? Uma maravilha, claro!
    Em “amor à vida”, fico dividido, Concordo com a péssima atuação dos protagonistas, embora eu ame a Paolla Oliveira, ela deixou-se ofuscar pela personagem Aline, e Malvino Salvador parecia um iniciante. António Fagundes e Mateus Solano salvaram a trama.

    Bianca Rinald esteve bem em caminhos do coração, mas, Mutantes não é o tipo de produção para tramas do género, talvez se fosse uma série ou um longa metragem.

  5. Concordei com quase tudo. Amor à Vida, embora fosse ruim de fato, não merecia o primeiro lugar, já que existem novelas bem piores não citadas (quem lembra de Salsa e Merengue?). Também não concordo com a crítica contra o Matheus Solano. Ele praticamente carregou a novela nas costas, principalmente nos dois últimos meses. Tanto que Paolla Oliveira foi praticamente esquecida,
    De qualquer forma, gostei do texto e concordei com o restante das colocações. Vejo a qualidade dos textos e do roteiro caindo drasticamente nas últimas novelas da Globo. Babilônia é uma verdadeira festa de conveniências, por exemplo. Personagens que descobrem coisas na sorte e se encontram em vários momentos “chave” são exemplos. Um verdadeiro insulto à inteligência de quem assiste.
    A Globo se vale do grande prestígio que conquistou, da grande frota de atores e da qualidade do Projac, por isso sempre terá uma boa audiência. Mas em termos de história, enredo e narrativa são um verdadeiro lixo dramatúrgico.

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