Nostalgia: 25 anos de Instinto Selvagem

Reprodução – Universal Pictures / StudioCanal

Em 20 de março de 1992 chegava aos cinemas norte-americanos Instinto Selvagem, um dos filmes mais marcantes daquela década. Dirigido por Paul Verhoeven, o filme transformou em estrela Sharon Stone como a femme fatale Catherine Tramell. Hoje é inimaginável outra atriz no papel. Voltando no tempo não foi fácil a escolha da protagonista. Joe Eszterhas, de Flashdance, escreveu o roteiro de Instinto Selvagem em 13 dias, e o vendeu a peso de ouro, 3 milhões de dólares, para a Carolco Pictures.

A trama acompanha Nick Curran (Michael Douglas), detetive que investiga um brutal assassinato, que tem como principal suspeita uma bela e manipuladora escritora de romances policiais, interpretada por Stone. Eszterhas e Irwin Winkler (Rocky: Um Lutador), produtor envolvido no início do projeto, tinham em mente Milos Forman para comandar o projeto. O diretor de Amadeus aceitou o convite. Ao mesmo tempo em que Mario Kassar – executivo e co-fundador da Carolco – já havia fechado com Paul Verhoeven, com quem fez o bem sucedido O Vingador do Futuro. Verhoeven inicialmente sondou Peter Weller, quem dirigiu em RoboCop – O Policial do Futuro, e Tom Berenger (Platoon), que não gostou do script, para interpretar o detetive Nick Curran – nos estágios iniciais foi escrito como uma personagem feminina pensada para Kathleen Turner. Muitos atores foram considerados – entre eles Richard Gere. Wesley Snipes e Denzel Washington recusaram o projeto, que acabou encontrando seu protagonista em Michael Douglas, a escolha inicial de Kassar. O ator recebeu 15 milhões de dólares de salário. Mais velho do que pedia o roteiro, a entrada do ator exigiu mudanças em seu personagem.

Fotos – StudioCanal

Nesse meio tempo, Eszterhas e Winkler se desentenderam com Verhoeven. Alan Marshall (O Expresso da Meia-Noite) assumiu a produção e o diretor holandês chamou Gary Goldman, que trabalhou com ele em O Vingador do Futuro, para mudanças no roteiro. Em especial no personagem de Douglas. Mais tarde, Eszterhas voltou ao projeto e fez as pazes com Verhoeven. Relação que teria outros reveses. Devido a diferenças criativas e aos protestos da comunidade LGBT, que consideravam o filme misógino e homofóbico, pelo caráter duvidoso de Tramell e das outras personagens femininas. A intenção de Paul Verhoeven e Michael Douglas era fazer um thriller noir inspirado nos clássicos de Alfred Hitchcock. Assim como Um Corpo que Cai – um dos filmes preferidos de Verhoeven -, Instinto Selvagem tem São Francisco como pano de fundo da história. Outra vontade do ator era contar com uma “estrela” ao seu lado, para dividir o peso do polêmico filme. Douglas sugeriu Kim Basinger, que recusou o projeto para fazer o suspense, também inspirado em Hitchcock, Desejos.

Basinger, Pfeiffer e Stone / Fotos – Cosmopolitan / Herb Ritts / StudioCanal

Em torno de 50 atrizes foram pensadas para Catherine Tramell, com Michelle Pfeiffer sendo a escolha favorita dos produtores. Por conta do teor sexual de Instinto Selvagem – a atriz já havia dito não a O Silêncio dos Inocentes pela violência do longa -, a loura passou adiante o papel. Preferiu viver a Mulher-Gato de Batman – O Retorno. O problema com nudez e cenas de sexo foi também o argumento de Julia Roberts, na época vivendo o auge de Uma Linda Mulher. Verhoeven chegou a pensar em Demi Moore, que queria muito a personagem. Acabou escolhendo a pouco conhecida Sharon Stone, quem havia dirigido em O Vingador do Futuro, por conta de seu satisfatório teste de cena.

Michael Douglas ficou contrariado. Não queria uma desconhecida como parceira. Enquanto a produção avançava, Stone aguardada para começar a filmar. O que a deixava apreensiva, pensando que seria demitida a qualquer momento e substituída por Pfeiffer. Como sabemos não aconteceu. Sharon ficou com o papel – recebendo 500 mil dólares -, e entregou uma icônica atuação, eternizando Catherine Tramell no imaginário popular. Tendo como inspiração outras femme fatales do cinema: Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) de Pacto de Sangue e Matty Walker, personagem de Kathleen Turner em Corpos Ardentes. Além de parte do visual de Kim Novak em Um Corpo Que Cai. Stone foi alçada a fama naquele 1992, sendo a mulher mais comentada do ano. E de muitos que se seguiram na década de 90, até chegar ao ápice da carreira com a indicação ao Oscar por Cassino.

Durante as filmagens o relacionamento de Sharon Stone com o hoje amigo Michael Douglas não foi tão fácil. Os atores, que em cena tinham muita química, viviam durante as filmagens uma relação de tensão. Segundo a atriz, isso ajudou muito no trabalho da dupla, que demorou cinco dias para filmar a principal cena de sexo do longa. Com Verhoeven, Sharon trocou acusações por conta da famosa cena da cruzada de pernas. A atriz alega que não sabia que seria mostrada de forma tão explícita sem calcinha. Já Paul afirma que Stone tinha concordado com a cena – inclusive tirado a calcinha a dado para ele -, tendo mudado de opinião posteriormente por conta de seus agentes. Idealizada por Verhoeven, sem estar no roteiro original, a cena da cruzada de pernas continuou em seu corte final, se tornando a mais comentada do filme.

Stone e Verhoeven divulgando Instinto Selvagem, filme de abertura do Festival de Cannes em 1992 / Divulgação

Instinto Selvagem estreou dividindo a crítica. Muitos o taxaram de apelativo e até pornográfico por conta de suas cenas de sexo e nudez, em especial a do interrogatório de Catherine. Deixando de lado qualquer moralismo, o filme traz Sharon Stone, no auge de beleza e carisma, em um de seus melhores momentos no cinema, e uma direção afiada de Verhoeven, certamente um dos mais ousados e inteligentes diretores do cinema mundial. O roteiro de Eszterhas segue a cartilha dos filmes noir, deixando dúvidas quando sobem os créditos. Outro destaque é a memorável trilha sonora do saudoso Jerry Goldsmith, indicada ao Oscar. O filme recebeu ainda uma nomeação em montagem ao prêmio da Academia e melhor atriz para Stone no Globo de Ouro. Merecia uma vaga no Oscar.

Reprodução – Universal

Quarto filme de maior sucesso em 1992, Instinto Selvagem rendeu 352 milhões de dólares na bilheteria internacional. Valor alto para a época. Todo o êxito apontou para uma sequência, mesmo que o filme original não precisasse dela. Instinto Selvagem 2 chegou às telas em 2006, após anos de desenvolvimento marcado por troca de diretores, atores e ameaça de processo contra os produtores por Sharon Stone – que recebeu US$ 14 milhões para voltar a personagem que a transformou em estrela. Antes não tivesse saído do papel. Mesmo tendo seu charme camp, o filme foi um enorme fracasso de crítica e bilheteria. Além de infelizmente desligar os aparelhos da carreira de Stone, que desde então vem se dedicando a projetos de pouca repercussão em cinema e televisão. Esse deslize não mancha a imagem do primeiro filme, que continua ousado e interessante a cada nova visita.

Instinto Selvagem (Basic Instinct, EUA/França, 1992) De Paul Verhoeven. Com Michael Douglas, Sharon Stone, George Dzundza, Jeanne Tripplehorn, Leilani Sarelle. 128 Min. Universal. Em DVD e Blu-Ray

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Publicado por

Ramon Dutra

Jornalista

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